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Câmara Municipal de Fafe



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Notas

O Museu das Migrações e das Comunidades foi fundado por deliberação do Município de Fafe em 12/07/2001.  Um Museu que pretende aprofundar o conhecimento das migrações na diáspora portuguesa.





O tempo dos metais


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O TEMPO DOS METAIS E A VIDA NOS CASTROS - Miguel Monteiro (ver)

 

OS CASTROS

 

Caminhando no território concelhio, encontramos os Castros de Cepães- (Crastro, Retortinha); Fafe (Crasto ou Santo Ovídio); Freitas (Monte de Santa Marinha); Revelhe (Crastro, Outeiro Mau); Ribeiros (Crasto e Portela, Penedos de São João) ; Santa Cristina de Arões (Monte de Santo Antonino); São Gens (Paredes, Subidade e Povoação, Castro), São Clemente de Silvares (Crasto), São Vicente de Paços ( Crasto).

Estes constituem os vestígios dos primeiros agregados populacionais fixos, permanecendo ainda na toponímia local com as designações de crastos, castelo, crestuma, crestelo, cividade.

Teremos nestes lugares, para além dos que desconhecemos ou de outros que foram destruídos, o que se designa por Castros.

São os primeiros lugares de habitação fixa dos habitantes deste território, com características específicas de defesa.

Visitando-os, constatamos que os mesmos não se localizavam em locais especialmente íngremes ou inacessíveis, como era de prever, tendo em conta a função exclusivamente defensiva, como no caso da Citânia de Briteiros, mas protegidos e fortificados com cinturas de muralhas, porque se situam em elevações com desníveis menos acentuados.

É de supor que inicialmente se trataria de uma ocupação espacial defensiva, mantendo, muitos deles, marcadamente essa característica, condicionada pela estrutura do espaço.

Muitos destes locais apresentam uma ocupação que vai quase até ao sopé, de fácil acesso e de grande fragilidade defensiva e outros que serviriam apenas de refúgio dos gados.

Ao fortificarem com muralhas os seus castros, estes povos criariam dificuldades acrescidas aos que, excluídos das suas comunidades ou voluntariamente dependentes do saque, se atrevessem a atacar.

Porém, quer a sua localização, quer as muralhas de protecção, poderiam constituir uma intenção construtiva inicial de segurização pessoal e colectiva.

A intenção defensiva da construção das muralhas faria parte dos mecanismos protectoras e segurizantes da comunidade, dado que não teriam preocupações expansionistas, mas tão só necessidades de defesa de áreas produtivas.

Este comportamento justifica que não tivesse havido uma atitude comum e organizada dos povos peninsulares perante a acção colonizadora romana e a acção de guerrilha usada pelos povos castrejos contra os romanos o resultado dos processos defensivos autónomos comuns nas circunstâncias comuns.

Cada castro constituiria uma organização autónoma e socialmente hierarquizada, quer em termos sociais, quer "militares".

Os castros, na sua maioria apresentam vestígios de romanização, como é o caso do de Santo Ovídio, onde apareceu material arqueológico que o demonstra e, alguns deles mantiveram-se sempre habitados, dando origem a muitos dos povoados actuais.

A implantação destes Castros em pontos altos ou elevações, condicionou a estrutura dos aglomerados, em que uns denotam um maior cuidado de ordenamento, e outros apresentam um aparente descuido de instalação.

As habitações destes povos eram feitas de pedra miúda e coberturas de colmo suportado por uma coluna central de madeira, ajustadas ao topo e às encostas das elevações, organizando um aparente complexo esquema de vivência e utilização das áreas comuns, as quais eram determinadas por necessidades das práticas sociais e económicas do quotidiano.

O chão das casas era de terra batida ou barro por cozer.

Com a romanização passa a utilizar-se a telha na cobertura e no chão aparecem os tijolos e mosaicos, prática só utilizada pelos que possuíam maiores recursos económicos.

Outros aspectos significativos desta cultura proto-histórica estão representados na estrutura espacial das cabanas de pedra, de planta circular, aparecendo as de estrutura quadrangular.

As casas, muralhas, arruamentos e mós são o produto do conhecimento e da técnica comprovativa da existência do primeiro trabalho de pedreiros e calceteiros.

As actividades económicas fundamentais destas populações sedentárias eram a agricultura o pastoreio e criação de gado, situando-se os Castros concelhios muito próximo dos percursos de água, demonstrando-o o elevado número de exemplares de mós manuais para a transformação dos cereais aí cultivados.

Destaca-se também o cultivo do trigo, da cevada e do linho e, consequentemente, a existência da sua transformação manufacturada.

A sua dieta alimentar estava também ligada ao fabrico de farinhas de bolota, bem como a recolha da castanha.

A fiação da lã e do linho, demonstram já a existência de uma divisão de tarefas com aplicação de técnicas engenhosas e um trabalho especializado.

A trituração dos grãos de cereais, da bolota, etc., era feita em mós manuais molae manuariae – de forma circular e perfuradas no centro, sendo a inferior fixa (dormente) e a superior móvel.

Fabricavam a cerâmica de barro grosseiro e, o carácter arcaico das suas decorações incisas ou estampadas a matriz, demonstram o seu carácter local. A roda do oleiro foi muito tardiamente introduzida na cerâmica castreja, mas na época romana estava já vulgarizada.

As práticas de uma actividade de fabrico de objectos de ferro com aplicações decorativas, demonstram o domínio das técnicas de produção e execução de objectos em ferro e ouro na joalharia, como no caso das braceletes de ouro encontradas em Arnozela, na vertente Norte da Serra de Penouta, datadas de c. 1700 a.C, com 533 gramas e formado por um molho de 20 argolas de ouro. (3)

As esculturas de javalis e touros encontradas em muitos castros cumpriam funções importantes na colectividade que se desconhecem, mas que se supõe estarem ligadas a ritos de fecundidade.

O saque e a actividade guerreira, para além de pressupor a hierarquização social, permitiram o estabelecimento de contactos com outros povos e o combate contra com os que entretanto chegaram à península.

Segundo Estrabão, bebiam apenas água, cerveja de cevada e leite de cabra. Os Vinho, só o bebiam em festins.

O principal alimento era constituído, durante uma grande parte do ano, pelas glandes de carvalho, que eram moídas e utilizadas para o fabrico do Pão. No litoral e nas proximidades dos rios, alimentavam-se de peixes e mariscos [...].

Os estuários eram ricos em pescado, no dizer de Estrabão e de Justino. Os autores referem-se a muitas plantas cultivadas na Lusitânia, em especial a vinha, a oliveira, a figueira, a cevada e o trigo.

É de crer que a carne dos rebanhos numerosos fosse também alimento dos Lusitanos.

Em vez de Azeite, os Lusitanos empregavam na alimentação a manteiga. Nos seus banquetes, os convidados sentavam-se em bancos de pedra, segundo a idade e a condição social, e passavam a comida de mão em mão.

Dormiam no chão cobrindo-se apenas com o seu manto negro.

O Carácter militarista destes povos é demonstrado pelo aparecimento de estátuas de guerreiros como o que apareceu, nos finais do século XIX, no Castro de Santo Ovídio, com 1, 70 cm de altura, 0,68 cm de largura nos ombros, actualmente guardada no Museu Martins Sarmento, em Guimarães.

O guerreiro, representado com as pernas partidas, veste túnica, apertada por um cinturão de quatro dobras. Na parte superior de cada braço ostenta duas xorcas (pulseiras). Com a mão esquerda segura um escudo redondo e concavo, de 0, 50 cm de diâmetro, e com a mão direita um punhal embainhado. (*)

Nas actividades de guerra, e segundo Estrabão usavam um pequeno escudo, de dois pés de diâmetro e concavo anteriormente, que traziam suspenso do pescoço; vestiam cotas de linho, e por vezes cobriam-se com capacetes de couro, serviam-se de um punhal ou duma faca e que os peões utilizavam dardos compridos ou lanças com ponta de bronze.

Tito Lívio, Plutarco, Apiano celebraram o valor dos cavaleiros lusitanos, que eram ajudados pelas qualidades dos seus cavalos.

Estes eram pequenos mas corredores e trepadores magníficos.

Entre as qualidades guerreiras dos Lusitanos avultava a valentia, a coragem, a agilidade e o seu entusiasmo patriótico. A sua estratégia habitual era a guerra de guerrilhas, que os Romanos consideravam desleal e desonesta, chamando-lhe latricínium e os guerreiros latrones ou praedones.

Sabemos, por Estrabão, que estes nossos antepassados se untavam de azeite.

Diodoro afirma que os Celtiberos e as tribos montanhesas tinham, apesar dos seus cuidados de limpeza, o costume estranho de lavar o corpo e os dentes com urina!

O Vestuário dos homens, segundo Estrabão, era negro, de lã grosseira ou de pêlo de cabra. Apenas as mulheres usavam vestuários de cor.

Dos textos e das esculturas petroglifos rudes podemos concluir que os montanheses, como os Celtas, vestiam um manto grosseiro, o sagum, que descia até perto dos joelhos ou mesmo mais abaixo.

Usavam cabelos compridos, tanto os homens como as mulheres, prendendo-os, em combate, com uma fita. Não desconheceriam o uso de pentes e de alfinetes. Prendiam os vestuários com fíbulas.

Embora o País fosse rico em plantas, frutos e gados, os lusitanos das montanhas preferiam, segundo Estrabão, à cultura do território a depredação e as guerras com os vizinhos.

Os lusitanos executavam jogos de destreza física, torneios tanto de ginástica como de equitação, arremesso, pugilato, combate em grupos, etc.

Por ocasião dos seus festins, dançavam em redor ao som da flauta e da buzina, saltando muito alto e caindo em seguida de joelhos.

Entoavam hinos e executavam danças, também por ocasião dos combates.

Entre os Lusitanos havia o culto do Sol e da Lua, sacrificando animais e prisioneiros.

Os Galaicos, segundo Sílio Itálico, eram hábeis em adivinhar o futuro nas fibras das vítimas, no voo das aves e no fogo dos Céus. O culto aos

mortos que, como dissemos remontam a longas eras no território, existia também entre os lusitanos.

Ao contrário dos celtiberos e dos Vaceus que, segundo Sílio e Eliano, expunham os cadáveres às aves de rapina, os Lusitanos incineravam os cadáveres dos seus, seguindo determinados ritos fúnebres, entre os quais o sacrifício de animais cujos despojos acompanhavam aqueles nas sepulturas.

Armas, cerâmica, ornatos, joias, fíbulas, coçoiros, amuletos, etc., acompanhavam igualmente as cinzas do morto na última morada. Estas ficavam sem resguardo no terreno, ou eram introduzidas em vasos-ossuários ou apenas protegidas por camadas de pedras, que cobriam uma fossa rectangular cavada na própria rocha.

Existem ainda, no imaginário dos habitantes das regiões montanhosas do concelho, a crença de que os velhos eram, levados para num lugar distante onde morriam devorados pelos ‘bichos’ do monte, e ainda referenciadas por lendárias narrativas desta prática social Celtica.

Os nossos montes estão carregados de lendas e mitos, onde é fácil encontrar pedras esculpidas, covinhas, círculos concêntricos, espirais que têm desaparecido com as explorações do granito.

A existência, em alguns castros, de petroglifos constituídos por espirais, círculos concêntricos e outras linhas com aspectos serpentiformes, que se encontram já nas paredes de dolmens e na arte rupestre pré-histórica, faz pensar em que se tratasse dum culto da serpente.

O povo localiza nos castros damas encantadas sob a forma de cobras ou atribui a cobras a defesa do local.

Lembramos a lenda que nos fala de uma menina que transportava uma bilha de leite quando foi surpreendida por dois mouros que lhe beberam o leite, deitando de seguida duas palhas para dentro do vaso, as quais se transformam em fios de ouro, ou a da serpente de Ribeiros que, depois de ter sido morta pelo Cavaleiro da Casa de Paços, vitima o agressor, ou ainda no caso de uma velha que no monte do Calvelo (Rego) guardava o penedo onde estava escondido ouro e se transforma em serpente quando se quiseram apoderar do precioso metal.

Este culto está presente em muitos ritos locais, como uma entidade feminina, bela e propiciadora de riquezas e de fertilidade.

Ao mesmo tempo ainda nestes locais altos ou outeiros se fazem festividades de Junho onde se queima o pinheiro de são João.

 

Miguel Monteiro (1996), Migrantes, Emigrantes e Brasileiros, Territórios, itinerários e trajectórias, Braga, Universidade do Minho