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Câmara Municipal de Fafe



O nosso blogue

Notas

O Museu das Migrações e das Comunidades foi fundado por deliberação do Município de Fafe em 12/07/2001.  Um Museu que pretende aprofundar o conhecimento das migrações na diáspora portuguesa.





Paisagem e território

FAFE

«Olhe, meu caro, esta boa terra de Fafe é assim: pão pão, queijo queijo - portuguesa de lei, hospitaleira, franca até á rudeza e capaz também de pôr um bom cacete de cerquinho, a sua justiça deles, onde el-rei não haja posto a sua própria.

E é que a espada vai na burra, e nada por isso de contrariar a altaneira Fafe. Mas é de simpatizar, não é verdade?

Eu, de mim, quando ao regressar de Basto, em uma das excursões que fiz pela província, cheguei ao alto da Gandarela e avistei a larga bacia enflorada de esmeraldas, em que assenta a maior parte do concelho, paisagem onde a luz ri e a água brinca, tive a compreensão desta alegria máscula e saudável, deparando no vale extenso e nas montanhas rudes com o aspecto duma natureza, que é ao mesmo tempo uberrina e alegre, forte e expansiva. Aí tem o homem explicado pelo meio.»[1]

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Fafe é a designação simultânea de duas realidades distintas: a única freguesia urbana e sede administrativa do concelho e a do concelho.

Localiza-se no Minho geográfico. O Minho dos contrastes, económicos, sociais e humanos: O Litoral, o Alto Minho, e o Minho Interior.

Fafe, dentro desta região do Norte do país, pertence ao Minho do Interior; o Minho do Alto Ave e dos contrafortes do Marão, da Cabreira e do Gerês, onde predominam pequenos vales percorridos por inúmeros ribeiros originários da cadeia montanhosa que circunda o concelho e preenche a maior parte do seu território a que a romanização chamou de "Mons Longus", onde radica a sua antiga designação de concelho - Montelongo.

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Este situa-se a 41 0 27,6 ' de latitude e a 0 0 58,2' a E do meridiano de Lisboa, apresentando um relevo de altitude média de 350 metros, atingindo no ponto mais alto 893 metros.

Desta região, temos, em 1527, uma das primeiras referências descritivas: «Este concelho de Momtelomguo he terra de mantenha e caise chão nõ tem loguar jumto nhuü nem forta­leza», [2] referindo-se, deste modo, mas muito genericamente, a um primeiro território, que o concelho de Montelongo ocupava, e que actualmente constitui parte do actual concelho de Fafe.

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Os limites geográficos do actual concelho são definidos, a Norte pelo rios Ave e a Este pelo Tâmega, os quais, através dos seus vales profundos, marcam as fronteiras desta micro-região no sentido Este-Oeste e Norte-Sul, delimitando-se assim das terras do Barroso e do Marão. Para cá do rio Tâmega fica a serra do Viso, como limite do território de Fafe, como prolongamento natural do planalto de "Monte Longo" e situada já no concelho de Celorico de Basto.

Geograficamente, Fafe é já o fim dos vales extensos e abertos do Norte Litoral, que lentamente se ajustam e se reduzem, aproximando-se progressivamente aos contrafortes das montanhas do interior, anunciando o inicio dos concelhos do Minho Interior

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Os limites administrativos são definidos a Norte pelos concelhos de Póvoa de Lanhoso e Vieira do Minho; a Leste, pelos de Cabeceiras de Basto e Celorico de Basto; a Oeste, pelo concelho de Guimarães; a Sul pelo de Felgueiras.

Saindo da sede do concelho, vai-se aos dois primeiros, viajando pelo serpentear do vale apertado do Vizela e, a partir de Travassós, pelo rio Pequeno, para se chegar, à bacia do Ave e às terras do Barroso. Aos concelhos de Basto chega-se atravessando as serras de Moreira ou da Lameira.

Aos concelhos de Guimarães e de Felgueiras, vai-se caminhando na direcção do Sul e Sudoeste, parecendo mais fácil e próximos.

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Os montes parecem franquear a ida, agachando-se e abrindo-se para facilitar passagens, onde tudo parece mais aberto, mas também mais cheio, rico e verde, num o quadro geomorfológico local que, ao longo de milénios, apresentou alterações muito lentas e indetectáveis.

Estas elevações, sem evidenciarem características próprias das Serras, apresentam prolongamentos nas vertentes que se alongam numa progressiva diminuição de altitude orientadas para Sul e Oeste, onde se localizam os Concelhos vizinhos de Felgueiras e Guimarães.

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No Norte acentua-se a altitude do planalto de Monte longo, que circunda o concelho, onde nascem os rios Vizela, Ferro, Bugio e muitos outros pequenos ribeiros seus afluentes, os quais vincam a paisagem no seu caminho para o Ave.

O rio Vizela, como a mais importante linha de água, com nascente na freguesia de Pedraído, mereceu a atenção, em 1706, de Carvalho da Costa [1706], que descreveu o seu trajecto desde a nascente até desaguar no rio Ave.

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«O rio Vizella dista de Guimaraens huma legoa para Sul, nasce nas terras do Couto de Pedraydo, & despenhando-se por ellas ao lugar de Calçoens, corre partindo a Freguesia de S. Pedro de Queimadella do termo de Guimaraens, & daqui buscando o lugar de Vizella, ahi toma o seu nome na Freguesia de S. Thomé de Travaços passa à de S. Vicente de Passos, dividindo-a do Concelho de Monte Longo, & nesta freguesia tem a sua ponte de Bouças de pedra lavrada junto da Ermida de S. Bartolomeu, que estando na borda do rio he daquelle Concelho, & correndo de Nascente a Sul pela Freguesia de Gulaens chega à Honra de Cepaens, donde quasi meya legoa de distancia vay dividir o Couto do Pombeiro do termo de Guimaraens.

No Couto de Pombeiro acha o rio Avizela franqueando a sua passagem para o Vendaval com a ponte do Pombeiro de pedra lavrada, ao pé da serra de Santa Catarina, da parte Sul.[...].»[3]

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Ao ser assim tão cuidadosamente descrito infere-se da importância que esta linha de água tinha na viragem do século XVII, não só para Monte Longo, como para as terras do termo de Guimarães e para o importante Couto Beneditino de Pombeiro.

Este rio, sendo a maior e a mais importante linha de água do Concelho, orienta-se dentro do território concelhio no sentido Nordeste - Sudoeste, recebendo as águas de dois dos seus principais afluentes: o Ferro e o Bugio, cujos percursos se orientam no sentido Este - Oeste.

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A orientação destas linhas de água, cujas nascentes se situam no território do concelho, ou que por ele correm, vincam os declives do relevo local e o modo como as populações nele se instalaram, dado que, nas sua vertentes, se instalaram as populações que hoje formam as freguesias e lugares habitados.

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No extremo Norte, quase nos debruçamos sobre o leito do rio Ave e nos sentimos nas proximidades das freguesias que se encontram geograficamente mais distantes da sede administrativa, nomeadamente Gontim, Aboim, São Miguel do Monte, Felgueiras, Várzea - Cova, Pedraído, Queimadela, Várzea - Cova.

Dos pontos mais altos do Norte, vêem-se os afloramentos graníticos agrestes e despidos do Marão, Cabreira e Gerês, vincando desníveis abruptos que debitam para as terras de Fafe ventos secos, que influenciam negativamente a capacidade vegetativa das culturas e plantas naturais desta parte do concelho.

A vista daqueles maciços montanhosos e cinzentos do interior contrasta com a do litoral, anunciada na frescura verdejante das chãs húmidas das encostas do planalto de Montelongo, escondidas por entre carvalhais que se estendem pelas encostas viradas a Sul e Oeste, protegidas dos efeitos desidratadores das ventanias do Norte.

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A vegetação arbórea sempre terá sido reduzida, dado que, ainda hoje, podemos observar rebanhos de ovinos e caprinos que teimam em testemunhar antigas e documentadas formas de vivência tradicional, o que ainda justifica a existência de grandes manchas sem vegetação arbórea.

Por entre as manchas dos carvalhais, restam ainda raros exemplares de uma fauna que, noutros tempos, terá sido rica e variada, havendo ainda notícias de uma fauna variada: corças, lobos, lebres, texugos, lontras, perdizes, rolas, pombos, águias, corvos, codornizes, e muitos outros animais que outrora povoaram a paisagem do concelho.

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Porém, e tendo em conta a importância que a caça tinha na alimentação dos habitantes locais, destacamos a informação do século XIX, que revela antigas abundâncias que então ainda existiriam:

«A nossa mesa era lauta em coelhos. Façam ideia do montesinho da terra, sabendo que um criado saía fora de portas com dois cães e um pau, e voltava com uma braçada de coelhos, uns, a meu ver, filados pelos cães, outros derreados à bordoada.»[4]

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O carvalho é a árvore que assume maior relevo, quer pela madeira que desde sempre forneceu, quer pela possibilidade de surgimento de duas indústrias artesanais: a do carvão e a da casca.

Se a indústria do carvão ainda hoje resiste como actividade dos habitantes desta parte do concelho, a da casca, em 1952, era referida como actividade de relevo.

A casca era extraída do carvalho de quatro em quatro anos, principalmente nas freguesias de Várzea Cova e Aboim, a qual, depois de seca era moída. Após a extracção do tanino da casca, este era vendido para o Porto e Guimarães onde era utilizado na indústria dos curtumes. Os resíduos da casca eram queimados nas lareiras. [5]

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Além disso, a morfologia destes territórios, é caracterizada pela possibilidade em se abarcar grandes distâncias e pela disposição das chãs húmidas, dispostas nas vertentes viradas a Sul e Oeste.

Por outro lado, as inúmeras nascentes de água que se orientam no sentido Norte - Sul e Este - Oeste e a sua boa disposição solar constituem, com a natureza arenosa do solo, o espaço ideal para populações estabelecidas na base de uma actividade agro - pastoril.

Se a natureza do solo propiciou uma agricultura episódica e a pastorícia, a existência de um espaço abertos em plataformas de altitude variável, chegando aos 700 metros, os primeiros habitantes desta paisagem dominavam, com alguma facilidade, um vasto território envolvente.

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Ainda recentemente, a agricultura do centeio, a pastorícia, a fabricação do carvão constituíam as actividades principais dos habitantes do Norte, através das quais se poderá apenas imaginar algum do seu antigo quotidiano.

As plataformas montanhosas do Norte e Nordesde do concelho são o lugar onde podemos encontrar as marcas de uma humanização pré - história, onde estas populações terão instalado frágeis e precárias estruturas habitacionais e que o tempo foi preenchendo com lendárias simbologias que ainda perduram e nos quais se fazem referências a mágicos poderes, onde se misturaram "sagradas personagens", como por exemplo na Lagoa, onde se vai tirar o diabo. [6]

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Aqui as estradas vão-se abrindo em torcicolos por entre urge rasteira, informando-nos de natureza geográfica desta terra e do traçado sinuoso das vias de comunicação.

Caracterizada por um relevo de baixa altitude onde inúmeros vales de pequenos ribeiros e algumas elevações que constituem prolongamentos naturais do planalto, orientados em declives suaves anunciadores do Atlântico.

Esta parte do concelho compreende os vales mais abertos e as elevações de altitude menos vincada.

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Numa observação mais atenta observamos três factores que influenciam o processo económico e social de todas elas, ainda com incidências diferentes: os campos ajustados às ribeiras e às levadas, o monte e as vias de comunicação.

O Centro/Sul é o local das terras mais férteis onde se desenharam socalcos menos íngremes e campos mais extensos, porque a inclinação das encostas é mais suave.

A prática de construção dos socalcos surge como processo de construção de campos agrícolas de maior ou menor dimensão, integrados entre si numa relação directa com a inclinação da encosta mais ou menos íngremes.

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No vale encontramos os solos francamente regados por engenhosas e fartas levadas, cujos desníveis permitiram a rega de terras situadas a grande distância, funcionando permanentemente para rega de Verão ou rega de lima no Inverno.

O grande número de linhas de água permitiu a construção de moinhos de várias mós, afirmando-se em alguns casos como conjuntos edificados indicadores da dimensão das propriedades e da riqueza dos proprietários.


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Através da quantidade de milho e do estrume produzidos numa propriedade, inferia-se para o valor e dimensão da propriedade quando colocada no mercado. Pelo primeiro, deduzia-se da dimensão da área de cultivo e, através do segundo, da dimensão do montado necessário à produção do referido fertilizante, regra que se aplicava a todo o concelho.

Qualquer propriedade, com interesse agrícola, era composta de duas unidades produtivas: o terreno arável e os "montes" de onde provinham os matos fertilizantes.

Existe, assim, uma interligação entre a propriedade agrícola, montado e o número de cabeças de gado, que, no conjunto, constituem a imagem social do seu proprietário.

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[1] Vieira, José Augusto, O Minho Pitoresco, Tomo 1, Lisboa, Liv. A.M. Pereira, 1886, p.566

[2] Freire, A. Braamcamp de Freira, «Povoação de Entre Douro e Minho no XVI Século», p.241, Arquivo Histórico Português, Lisboa, 3 (7/8), 1905

[3] Costa, António Carvalho da, Corografia Portuguesa, Tomo I, Lisboa, 2ª Ed, 1868, p.102

[4] Castelo Branco, Camilo, As Memórias do Cárcere, Lisboa, 1ª Ed. Parceria A. M. Pereira, L.da, 1862

[5] Pereira, Maria Palmira da Silva, Fafe- Contributo para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, Coimbra, Casa do Castelo, 1952, p. 125

[6] Monteiro, Miguel, "Cultos e Ocultos de Monte Longo", Minia, 3ª série, Ano II, 1994, pp. 105-136