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Câmara Municipal de Fafe



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Notas

O Museu das Migrações e das Comunidades foi fundado por deliberação do Município de Fafe em 12/07/2001.  Um Museu que pretende aprofundar o conhecimento das migrações na diáspora portuguesa.





Povoamento

 

arqueologia rural fafe5

Designação: Casa de Lavrador

Localização: Vila Cova

Data: 2005

 

Actualmente, os 47817 habitantes do concelho distribuem-se por 216,72 Km2 e dispersos por 36 freguesias: Aboim, Agrela, Antime, Ardegão, Armil, Arnozela, Cepães, Estorãos, Fafe, Fareja, Felgueiras, Fornelos, Freitas, Golães, Gontim, Medelo, Monte, Moreira do Rei, Passos, Pedraído, Queimadela, Quinchães, Regadas, Revelhe, Ribeiros, Arões (são Romão), Arões (Santa Cristina), São Gens, Silvares (São Clemente), Silvares (Santa Cristina), Seidões, Serafão, Travassós, Várzea Cova, Vila Cova, Vinhós.

Tendo em conta as características geográficas do concelho, poderemos sugerir a sua divisão em duas partes distintas, tendo em conta as identidades do relevo dominante e das formas de organização dos aglomerados habitacionais: as freguesias do Norte e as do Centro/Sul do Concelho.

O Norte - planáltico - é o lugar onde se encontram as pequenas povoações de tipo concentrado, e, ao mesmo tempo, onde se inscrevem os pontos de maior altitude do território local: Monte do Santinho (Quinchães) 706 m; Pousa Foles (São Gens), 718 m; Serra do Marco (Povoação, São Gens), 851 m; o Maroiço (São Miguel do Monte), 834 m; Morgair (Gontim), 893 m; Monte de Penas Aldas (Freitas), 543; Santa Marinha (Freitas/Travassós), 597 m; Listoso (São Vicente de Passos), 584 m; Santo Antonino (Santa Cristina de Arões), 526 m; São Sabagudo (Armil), 542 m; Calvelo (Seidões), 724 m.

As estruturas arquitectónicas rurais, tendo em conta a função, são compostas pela habitação, equipamentos de abrigo dos animais e estruturas vocacionadas para os produtos agrícolas (armazenamento e secagem de cereais, fenos e ervas).

Estas estruturas ganham dimensões e formas distintas conforme as características naturais do local e a dimensão da propriedade a que se encontram ligadas. A morfologia planáltica, a altitude, o clima e a natureza do solo modelaram o tipo de povoamento, a organização da propriedade e os modos de exploração dos recursos locais.

Assim, se o meio natural condicionou e tipificou cada uma das micro-regiões, não ignoramos os factores sociais, tecnológicos e os associados aos processos humanizadores, bem como a actos sociais que as distinguem.

Os acidentes do relevo existentes na paisagem escondem ainda pequenos e antigos povoados, uns mais abrigados dos ventos do norte e, outros, viram determinada a sua ocupação pela abundância das nascentes.

Pela observação da distribuição dos aglomerados populacionais do Norte conclui-se que o planalto e as encostas do Norte é constituída por um elevado número de pequenos lugares habitados e de aglomerados dispersos na montanha e, ao mesmo tempo, um reduzido número de povoações: Vilela (Quinchães); Casadela (Quinchães); São Lourenço (Quinchães); Montim (Quinchães); Burgueiros (São Gens); Povoação (São Gens); Vila Pouca (Moreira do Rei); Barbosa (Moreira do Rei); Vilela (Moreira do Rei); Bastelo (Várzea Cova); Lagoa (Várzea - Cova); Gontim; Mós (Aboim); Argande (São Miguel do Monte); Luilhas (São Miguel do Monte); Casal de Estime (São Miguel do Monte); Castanheira (Travassós); Listoso (São Vicente de Passos) e ainda outros pequenos lugares como: Vilardoufe, Fontela, Barbeita, Santa Cruz, Cheda, Calcões.

De reduzidas dimensões surgem também os aglomerados de Aboim, Gontim, Pedraído, Várzea - Cova, Felgueiras, São Miguel do Monte e Queimadela, estes com estatuto de freguesia.

Estes são alguns dos lugares habitados do planalto de Montelongo e que se estendem por aquela vasta área geográfica, cujos habitantes mantêm ainda uma agricultura de solos pobres, predominantemente arenosos.

Sobre estes sítios Maria Palmira (1952), dizia-se que se andava por montes e serras onde se não via ninguém, mas apenas, de longe em longe, rebanhos de cabras e ovelhas guardadas por um rapazito, sentindo-se, quem se atrevesse a esta caminhada, isolado e numa região desértica ou desabitada.

O planalto e as plataformas intermédias das encostas apresentavam as condições naturais adequadas à aplicação das primeiras técnicas agrícolas e às primeiras vivências agrárias do Neolítico: existência de água à superfície durante todo o ano, onde se formam linhas de água e um solo arenoso de fácil incisão.

Pode dizer-se que o Homem do Norte foi sempre mais pastor do que agricultor, sem que jamais tenha atingido desafogo económico; antes assumindo uma precária e isolada existência, onde as soluções técnicas encontradas para resolver problemas de adaptação da comunidade às adversidades climáticas, nomeadamente os modelos arquitectónicos e organização espacial, estão intimamente relacionadas com as características do sistema social da comunidade.

As habitações encontram-se ajustadas às inclinações de pequenos outeiros, desenvolvendo-se o conjunto habitacional nas vertentes que apresentam, ao longo do dia, melhor exposição solar, viradas a sul e poente, reservando para a agricultura o sopé do outeiro. Não respeitam aquela orientação algumas das freguesias que se desenvolveram nas vertentes mais íngremes viradas a Norte, com grande quantidade de água corrente das nascentes das encostas, durante todo o ano.

Todas elas organizavam uma paisagem de povoamento concentrado no planalto do norte, onde se abrigam animais e pessoas, ganhando algumas construções amplitude e dimensão construtiva, não sendo estranha a acção de acrescidos proventos decorrentes da ampliação da propriedade e, também da exportação de capitais provenientes da emigração do século XIX.

«Nas freguesias do norte, as casas estão todas perto umas das outras, formando verdadeiros aglomerados populacionais que, de ordinário, constituem os diversos lugares.[...] Luilhas fica na encosta, meia sumida pela cor acinzentada escura dos seus asebres, quase todos de pedra, alguns ainda de colmo, escurecidos na totalidade pelo tempo e pouco asseio de seus donos. Parece uma povoação morta entre carvalhos e raros pinheiros que monotonamente a emolduram.

S. Miguel do Monte tem alegria e vida na vegetação variada, no branquear das suas habitações, todas caiadas de branco, mesmo as mais pobres, que se avistam de regiões muito distantes.

As casas do norte foram objecto da minha particular atenção. São, geralmente, térreas, e com uma dependência soalhada. É na parte térrea, a que mais interesse me despertou, que fica situada a cozinha, enquanto ao quarto ou quartos se destina o sobrado.

Também encontrei casas com um andar, servido por escada exterior de pedra, reservando-se o rés-do-chão - a corte - para abrigo dos animais.

As casas mais pobres são pouco asseadas. Não assim nas freguesias do sul onde, mesmo nas casas térreas, o esmero e a solicitude chegam a rivalizar e a exceder, por vezes, os de casas de gente abastada e nobre.» [ 1]

Se o conjunto arquitectónico rural é ampliado, nos finais do século XVIII e XIX, com a justaposição de novos elementos (espigueiro, eiras e alpendres), principalmente no Centro/Sul, o que foi possível pela existência de mais mão-de-obra e a existência de rendimentos acrescidos dos seus proprietários, pequenas equipamentos agrárias surgem para além dos limites do conjunto tradicional.

Se estes lugares de montanha do Norte do concelho marcam os primeiros locais de ocupação humana, o momento seguinte do processo de humanização da paisagem é caracterizado pela progressiva aproximação aos vales, onde surgiram, nos alvores da história, os Castros localizados nos outeiros do Centro/Sul do Concelho, implantados em os espaços abertos e próximos dos vales com águas abundantes.

Razões de natureza tecnológica ligada ao uso de novos materiais, nomeadamente o ferro, e de novas tecnologias, fazem surgir, a partir desta altura, dois ambientes distintos: o planalto e o vale.

Assim, as condições de integração e interdependência do Homem, natureza e tecnologia, determinaram, ao longo dos séculos, o processo de humanização dos territórios, iniciado no Norte planáltico e que se prolongou no tempo com a instalação das populações nas zonas ribeirinhas do sul, principalmente durante a romanização e durante a Idade Média.

A divisão interpretativa do território em duas partes distintas, surge neste processo humanizador, pela construção de ecossistemas sociais particulares, com uma progressiva expansão demográfica e populacional no Centro e Sul do concelho, mais aberto, desde a Idade Média, pela existência de antigas vias de comunicação de ligação do litoral ao interior, à circulação de pessoas, bem como pela facilidade de recepção de novas tecnologias e novos comportamentos sociais.

O sistema social de interdependência é expresso pela prática tradicional do pastoreio feito por uma única pessoa que leva aos montes a Vezeira, constituída pelas ovelhas e cabras de todos os que possuem este tipo de gado. No Inverno, pelas onze horas, ao toque de uma buzina, os rebanhos partem em busca das pastagens, regressando ao fim da noite. Cada animal é marcado por uma fita colorida indicadora da família proprietária.

A utilização dos pastos de montanha é gerido por todo a comunidade como se trata-se de um bem de todos, mantendo-se ainda a “bezeira” como modo de pastoreio dos animais pequenos, sendo dispensados de levar o rebanho aqueles que possuírem chibarro- (bode), prática ainda observada no lugar da Lagoa, dividido pelas freguesias de Aboim e Várzea Cova. Cada dia o pastor era diferente, o qual muda tantas vezes, quantas forem as famílias que têm gado na “bezeira”.

Estes habitantes mantiveram uma precária existência económica com implicações sociais, como por exemplo o surgimento de uma visão mítica, nas décadas de quarenta e cinquenta deste século de bandos de assaltantes, cujos efeitos se manifestaram durante os períodos de menor migração e emigração:

«Ladrões, só os de Luilhas e a célebre quadrilha dos felizardos, que são perto de cem, todos da mesma família, vivendo em Felgueiras, nas encostas de um monte, quase em comunidade, dos assaltos que fazem. Com eles nada querem as autoridades porque são rebeldes e vingativos.» [7]

Aqui, a pouca rentabilidade dos solos agrícolas e a incapacidade de promover a sua ampliação contribuiu para a manutenção e valorização das actividades ligadas ao pastoreio e determinou um sistema social de cooperação por distribuição de tarefas e a inter - ajuda nas actividades pastoris.

A propriedade individual tem uma forte marca social, quer no que se refere à casa, aos animais, ou mesmo na gestão do tempo como propriedade, principalmente se este está ligado ao uso de equipamentos colectivos.

O tempo tinha aqui a dimensão de propriedade, medida pela duração de utilização dos moinhos e das águas de rega, há muito marcado e fielmente cumprido sem que se tenham observado a existência de contratos escritos.

Assim, como se tratasse de um ritual, todos testemunham e controlam as regras e os tempos do seu uso, o que não deixou de produzir conflitos e, por vezes, mortes.

Os moinhos são de reduzidas dimensões, servindo vários proprietários, os quais se responsabilizam colectivamente pela sua manutenção e funcionamento. A propriedade do tempo de moagem é aqui símbolo e referência da dimensão da propriedade e da importância social do seu proprietário.

No que se refere ao Centro/Sul do concelho, José Augusto Vieira utiliza para a descrição da aproximação ao Sul as expressões: "larga bacia", "um vale extenso", definindo acertadamente a morfologia e a orografia do centro e sul, como sendo, de facto, os elementos do relevo que melhor a caracterizam.

Aqui, a área agrícola de solos mais férteis corresponde aos locais de instalação dos principais aglomerados populacionais, assentes numa paisagem aberta. Observam-se antigas levadas de rio e sistemas de rega particulares próprios das propriedades agrícolas individuais, em que a autonomia produtiva das unidades agrárias possibilitam o cultivo do milho, batata, feijão, vinha de enforcado, a produção de fenos e ervas.

«Ao fundo de uma colina, sobre a qual assenta a casa de Vieira de Castro, serpenteia uma ribeira de claras águas, que vão juntar-se ao Ave. As margens penhascosas deste córrego eram o nosso passeio de forçada predilecção, que não tínhamos outro.

Connosco ia Neptuno, o cão da Terra Nova, que eu dera ao meu amigo, como quem dava um dos raros seres da criação por quem mais sentidos afectos tenho experimentado. Neptuno brincava na corrente do ribeiro, e assim nos dava horas de passatempo, quais o género humano não poderia dar-nos mais divertidas de entorpecidos pesares.

Há naquele ribeiro uma catadupa em que a torrente referve, estrondeia, e quebra com grandes fragor numa bacia eriçada de rochas.

As árvores marginais enredam-se em pavilhão escuro sobre a bacia, deixando pequenas margens de relva sobre escamos de granito em que nos sentávamos, eu, pelo menos, enquanto Vieira de Castro dialogava em estilo de Fafe com a moleira da vizinha azenha. Denomina-se o pitoresco sítio: a Ponte do Barroco.» [8]

O Centro/Sul do concelho, possuindo um relevo de baixa altitude, facilitou os contactos entre as freguesias vizinhas e com a sede de outros concelhos, facilitando a modificação de comportamentos.

«A quinta do Ermo está situada no ponto mais despoético e triste do mapa-múndi. A casa é magnífica; mas os caminhos que a ela vos conduzem são algares, barrocais, trilho de cabras, vielas tortuosas, e aspérrimos desfiladeiros.

Os pinhais e arvoredos, que orlam parte da quinta, são enfezados e desgraciosos.

Os largos pontos de vista, assim mesmo monótonos, é preciso ganhá-los com grande fadiga de subida. A vizinhança do Ermo são casinhas de jornaleiros, que vieram ali procurar a sombra do afidalgado edifício.»[9]

A vinha, plantada nestas zonas de grande humidade é conduzida em altura, ajusta-se às árvores que ladeavam os campos e atinge alturas espectaculares, procurando os ventos e afastando-se, deste modo, da humidade do solos que impedia o seu amadurecimento e o seu desenvolvimento.

Aqui localizam-se as unidades agrícolas de maior dimensão indiciadas por 26 brasões do século XVIII e XIX, implantados nas fachadas das casas ou incorporados em exuberantes portões ou muros da propriedade residencial de senhorios, existentes nas freguesias de Medelo, Golães, Fafe, Fornelos, Quinchães, Armil, São Romão e Santa Cristina de Arões, Moreira, Ribeiros, surgindo como símbolos de prosperidade e de poderes senhoriais. [10]

A propriedade tem aqui o nome de quinta e os montes são extensivamente arborizados de pinheiro bravo, eucalipto e algum sobreiro, não se observando por isso a prática do pastoreio. Os gados pastam nos campos ou são alimentados nos currais. O milho é aqui mais intensivamente produzido e o vinho de ramada de melhor qualidade.

Na propriedade rural assenta o principal factor de desenvolvimento e o sucesso económico e social que os habitantes conheceram, onde afirmaram os seus conhecimentos técnicos e se definiram comportamentos sociais e culturais que perduraram localmente até à década de sessenta.

Mas a grande transformação da paisagem dá-se com a introdução das culturas ameríndias, das quais se destacam o milho e a batata.

O habitat é semi - disperso e «as casas estão disseminadas por toda a freguesia»[11] reconhecendo-se ainda hoje a existência de conjuntos de habitações tradicionais integrados no espaço agrícola, organizados em núcleos ainda relativamente homogéneos e distintos das actuais construções, mais marcados pelos eixos viário.

No cimo de pequenos outeiros vêem-se as igrejas paroquiais, estrategicamente situadas em curtas elevações, de cujas torres facilmente se percebe e vigia o território da freguesia, funcionando como a principal referência das povoações e dos seus habitantes.

O vale, onde se desenvolveram a maior parte dos lugares mais povoados e ricos do concelho e no qual se instalaram as referências sócio/culturais da freguesia, nomeadamente a igreja paroquial, constitui o principal elemento de afirmação e referência desta área territorial concelhia.

Nesta zona, com águas periodicamente abundantes ou intensivamente aproveitadas e divididas por consortes, o clima mostra-se mais suave, o solo mais rico, os campos mais extensos e regados, o que, em conjunto, possibilitou o surgimento de unidades produtivas mais rentáveis, geradoras de mais riqueza e de casas de maior prosperidade e dimensão.

«Nas freguesias do centro e sul do concelho as condições de vida são outras, influindo grandemente na maneira de ser dos homens.

Nessas, sobretudo nas mais próximas da vila, a agricultura é menos apreciada, há mais espírito de independência, mais autonomia.

Cada qual preocupa-se com o que lhe diz respeito e desinteressa-se da vida alheia. Admirei-me do despovoamento de algumas aldeias que, por ficarem nos subúrbios da vila, facilmente se enamoraram da lide citadina, trocando sem delongas o viver sedentário e igualmente laborioso dos campos, pela agitação e vaivém diário da vida fabril»[12]

Os lagares de azeite, as azenhas, serrações hidráulicas, centrais hidroeléctricas e uma fábrica de papel constituem as muitas formas de aplicação da energia hídrica que ainda se podem identificar nos leitos dos rios de Fafe, sem esquecer que, a eles se deve a instalação das indústrias têxteis do século XIX.

Este vale serpenteado, sempre vigiados por igrejas, estrategicamente situadas em pequenos outeiros e, de cujas torres facilmente se percebe e vigia a extensão do território povoado, já sem os cantares das moças alegres entre milheirais que outrora desafiavam escondidas encontros ou vigiados namoros dos campos.

«Na vila e freguesias vizinhas e do sul, a gente é muito mais sociável, falando aos estranhos como se já há muito os conhecessem.

De um modo geral, o povo é generoso, desinteressado e reconhecido. Consegui todas as informações e esclarecimentos que quis, sem dispender grandes remunerações. Se lhes oferecia da minha merenda, depois de algumas escusas, aceitavam; não assim, quando se tratava de dinheiro.»

[13]

Se no norte sobressaem os aglomerados, no Centro/Sul o que se destaca na paisagem são os campos largos, o verde plano e o carácter disperso das habitações, ainda que cada vez menos visíveis ou perceptíveis, sendo, em 1952, a antiga vila de Fafe um pólo de atracção demográfica: «admirei-me do despovoamento de algumas aldeias que, por ficarem nos subúrbios da vila, facilmente se enamoraram da lide citadina, trocando sem delongas o viver sedentário e igualmente laborioso dos campos, pela agitação e vaivém diário da vida fabril.»[14]

A freguesia de Fafe como único espaço "urbano" concelhio, onde se localiza a administração do concelho, surge já no século XIX, como lugar de novas representações simbólicas e de outras formas de vivência quotidiana, onde habitam os que não amam as lides agrícolas.

Como indicador de vivência no território local, nos finais do século XIX, o meio de transporte fazia-se a pé e pelas serras.

«Fui de Santo António das Taipas para as cercanias de Fafe, quinta do Ermo, onde me esperava, com os braços abertos e o coração no sorriso, José Cardoso Vieira de Castro [...].

Não me vá esquecer uma impressão, que muito tempo trouxe comigo por aquelas serranias, onde discorri três meses. Era a imagem duma mulher que carrejara de Guimarães ao Ermo o meu baú sobre a cabeça, por légua e meia de empinada serra.[...]Não me lembre a minha vida, senhor.

Faça de conta que eu sou uma desgraçada, que vai ganhar seis vinténs com este baú à cabeça. [...].»[15]

As propriedades agrárias do Centro/Sul assumiram maior autonomia, gerando um processo de exploração mais autónoma dependente apenas do agregado familiar ou recorrendo ao trabalho de assalariados.

«No centro e Sul, as casas estão disseminadas por toda a freguesia. Ainda vi algumas de colmo, no norte, mas poucas. São quase todas de pedra e telha, sem cal. Mas, a par destas, há boas construções, casas caiadas, com varandas de ferro e escadaria de pedra, para o primeiro andar.

A vila e freguesias vizinhas têm bons edifícios modernos, na maioria electrificados. No Norte, só excepcionalmente isto se verifica.»

Só agora, umas e outras mostram alguma dimensão, reflectindo os efeitos coloridos de uma acentuada emigração europeia, onde se vêem novas imagens e símbolos de novas "prosperidades" de proprietários ainda ausentes, e escondidos sinais de outras migrações de povos, que há muito conhecem a experiência migradora.

Só a emigração europeia do século XX provocou alterações na paisagem com as novas construções subordinadas a novos modelos arquitectónicos e a novos materiais, sendo, em alguns locais, irreconhecíveis os aspectos da paisagem antiga.

Hoje, as novas construções indicam a transformação de uma comunidade de inter ajuda ou cooperante em sociedades individualizantes, determinada pelo sucesso e produto de emigrantes da Europa.

Esta atitude era já comum na parte Centro/Sul do concelho, quer pelo carácter autónomo da propriedade, onde a quinta predominava, quer pela presença das indústrias, que se tinham instalado nesta parte do concelho na segunda metade do século XIX, quer ainda pelo surgimento de novos símbolos como a casa do "Brasileiro".

Miguel Monteiro (1996),

Migrantes e Emigrantes Brasileiros,
Territórios, itinerários e trajectórias,
Braga, Universidade do Minho,

 

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[1] Pereira, Maria Palmira da Silva, Fafe- Contributo para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, Coimbra, Casa do Castelo, 1952, p. 28-38

[7] Pereira, Maria Palmira da Silva, Fafe- Contributo para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, Coimbra, Casa do Castelo, 1952, p.27

[8] Castelo Branco, Camilo, As Memórias do Cárcere, Lisboa, 1ª ed. Parceria A. M. Pereira, Lda, 1862

[9] Idem, ibidem

[10] Brasões do concelho de Fafe, Fafe, Câmara Municipal de Fafe, 1986

[11] Pereira, Maria Palmira da Silva, Fafe- Contributo para o Estudo da Linguagem, Etnografia e Folclore do Concelho, Coimbra, Ed. Casa do Castelo, 1952, p.38

[12] Idem, ibidem

[13] Idem, Ibidem

[14] Idem, ibidem.

[15] Castelo Branco, Camilo, As Memórias do Cárcere, Lisboa, 1ª Ed., Parceria A. M. Pereira, Lda,