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Câmara Municipal de Fafe



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Notas

 

O Museu das Migrações e das Comunidades foi fundado por deliberação do Município de Fafe em 12/07/2001. Um Museu que pretende aprofundar o conhecimento das migrações na diáspora portuguesa.





As Vilas



Fafe1"Ficaria-nos-mal, a todos nós que tanto devemos ao Brasil, a nós todos que vemos a nossa terra engrandecida por uma grande parte dos nossos concidadãos lá terem ido ganhar as suas fortunas e depois virem edificar aqui as habitações, dotando a vila com casas de caridade, etc. desejamos que a um dos nossos principais largos ou ruas se não desse o honrado nome de Largo ou Rua da República do Brasil? Quem nos representa deve tomar essa iniciativa, que como homenagem ao Brasil, é merecidíssima.» (O Desforço, 6/12/1912)


Fafe2

O Brasil, na segunda metade do século XVIII e durante o século XIX foi o lugar propício para a acumulação de fortuna e o laboratório para o que veio a ser a ampliação de pequenos e modestos Solares do Minho, a construção das novas vilas e a ampliação das cidades.

Em Portugal, mas com particular destaque para as cidades do Norte do país, permanecem vivas inúmeras evidências materiais e simbólicas da emigração para o Brasil.

 

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Tais evidências são a consequência visível dos investimentos feitos pelos "Brasileiros" em tempo de "vai e torna", ou no seu regresso definitivo, principalmente dos que emigraram a partir da década de vinte do século XIX.

O Norte de Portugal é, assim, um local privilegiado para observar as representações materiais do "Brasileiro" e a construção simbólica desse fenómeno, particularmente, porque com os primeiros lucros do Brasil, o emigrante de sucesso, regressava à terra para ampliar a casa mãe ou construir uma nova e

cobrir de arrecadas as irmãs queridas e a continuar, aqui, a vida laboriosa que nas terras do Brasil foi a sua glória”.[1]

Dos que emigraram no século XIX predominavam os filhos de proprietários e agricultores, constituindo a classe média e média alta do Minho, solteiros, menores de 14 anos de idade e alfabetizados, regressando, muitos deles, definitivamente para se instalarem na terra natal, na vila ou cidade mais próxima, ou no Porto e em Lisboa.

Estes emigrantes de retorno, ao participarem no processo de desenvolvimento local com iniciativas de carácter individual ou de grupo e ainda, ao integrarem-se na vida das instituições públicas e particulares, denotam comportamentos sociais de afirmação e confirmação de lideranças, através das quais se distinguem e afirmam como parte integrante da burguesia, necessária ao processo de afirmação de uma vivência urbana, liberal e capitalista.

Os que os viram partir reconheceram os efeitos de uma dinâmica económica nova e de uma abundância estranha aos homens do Norte de Portugal e, ainda segundo António Figueirinhas, foi ele quem faz arrotear os montes, agricultar os campos, podar as vinhas, levantar as elegantes ramadas. [...] Promovendo o progresso agrícola, dando nas suas quintas o exemplo da cultura inteligente, espalhando dinheiro a juro, não só beneficia as populações com seu exemplo e com seu labor, como exerce uma importantíssima função económica suprindo a falta de estabelecimentos de crédito.”[2]

Depois de uma longa estadia no Brasil, regressavam com sucesso: eram filhos de proprietários, que confirmam, reproduzem e reforçam os estatutos sociais dos ascendentes, deslocando-se para a Vila onde são chamados de Barões, Condes, Viscondes e mais vulgarmente de Comendadores.

No entanto, a representação mais evidente do “Brasileiro” ficou particularmente marcada na paisagem arquitectónica das cidades, vilas e aldeias do Norte de Portugal, dado que, no século XIX, foi a época em que se verificou o retorno do emigrante português enriquecido no Brasil, sendo especialmente visíveis em Fafe as expressões da sua presença.

 

 



Nos teatros que mandaram fazer mesmo nos centro das vilas, exibiram o seu gosto pelas artes e o desejo de promover-se e promover a cultura, completando, na época, os elementos de cultura necessária a este grupo social formado de emigrantes do Brasil, que se destacou do conjunto da população rural local.

A imprensa local e regional da época dá, por todo o lado, notícia das obras filantrópicas que o “Brasileiro” ia promovendo, das ideias que defendiam e do partido que tomavam no tempo em que a queda de um governo era vivido como uma revolução.

Na construção das primeiras indústrias a Vapor, desenha o que veio a ser o tecido industrial português da região do Norte de Portugal, particularmente nas fábricas têxteis do Ave, Vizela e Porto, as quais se afirmaram como grandes centralidades sociais de gente que se arrumou em bairros operários em pobrezas prolongadas até à década de sessenta do século XX.

Na segunda metade do século XIX, as vilas ganham uma acrescida importância, iniciando uma configuração urbana marcada pela abertura de novas ruas e praças, bem como pela disposição e modelos das novas edificações.

As vilas receberam as novas elites que davam sentido aos novos ideários políticos e os “Brasileiros” aí estavam a ocupar os lugares públicos que foram dos seus ascendentes, agora reforçados por constituições, códigos, decretos e deliberações municipais.

A estruturação e o desenvolvimento urbano estão intimamente ligados, quer à implantação do liberalismo, quer à República, dado que o capitalismo liberal facilitou a acumulação e circulação de recursos financeiros disponíveis.

Os recursos financeiros dos capitalistas tomam, nas vilas, importância peculiar por se constituírem, quase exclusivamente, de capitais dos “Brasileiros de torna-viagem” como o actor instruído de um Portugal moderno, das viagens e do contacto com o mundo, sendo o Brasil cosmopolita o centro da aprendizagem para jovens saídos de um país pequeno e rural.

Os sinais de retorno de sucesso e as marcas expressas nas novas formas de capital social, cultural e simbólico, fazem dele o centro da paisagem social, promovendo a chegada do Comboio à Vila, a ampliação da praça principal, a instalação da energia eléctrica e, finalmente o telegrafo que o ligava ao mundo.

Podemos ver os "Torna-Viagem" na liderança das primeiras agremiações de interesse social, nomeadamente nas confrarias e nas Irmandades da terra. No Clube, discutiam as últimas novidades chegadas da Europa e o calor da política incendiava paixões com raiz nos ideários liberais maçónicos e se fazia política, tecendo estratégias de poder.

Aí se forjavam sentidos de descendência, na colocação em lugares na administração pública, para gente que vivia de rendimentos e que fazia das cidade de Lisboa e do Porto o lugar de eleição para demoradas estadias, instalados em hotéis ou procurava a sua residência definitiva.

Uma personagem que circulou num tempo que ainda se expressa amarelecido em postais com remetente de várias regiões do Brasil, que testemunham a vida de homens viajados e cultos.

A cidade era assim o lugar privilegiado para o retorno dos que possuíam projectos de investimento comercial e continuação de urbanidade, sendo a sua figura o referente de uma nova existência social e simbólica, a qual lhe oferece o estatuto correspondente a uma nova vivência económica. Lugares privilegiados para a construção da casa do “Brasileiro” foram as Vilas Novas, sedes da nova administração liberal, localizadas em sítio de passagem e circulação, que tinham a sua matriz fundadora em lugares de feira ou cruzamento de vias.

Aqui os novos modelos arquitectónicos e o empenhamento na vida política, reflectido nos acesos combates entre progressistas e regeneradores, testemunhados na imprensa local, são sinais de retorno de sucesso e marcas de novas formas de capital social, cultural e simbólico, que faz dos “Brasileiros” o centro da paisagem, reflectida na vivência de frequentadores de casinos, praias, termas, cafés e teatros, como homens que fazem do ócio a expressão de um novo estatuto social.

A república municipalista estimulou a acção e a iniciativa dos cidadãos para a participação autárquica e a promoção de iniciativas cívicas, continuando o processo de desenvolvimento liberal “o elixir da fortuna a remoça deveras; as construções particulares aí estão em abundância para o comprovar, tanto mais que se lê o sorriso da abastança alegre, que deve animar a fisionomia dos seus proprietários» (Vieira:1886, 567).

 


[1] Figueirinhas, António; in "Prefácio", Costa, D. António da, No Minho, António Figueirinhas, 1900

[2] Figueirinhas, António; in "Prefácio", Costa, D. António da, No Minho, António Figueirinhas, 1900

 


 

As Vilas dos Brasileiros - O Caso de Fafe

Os “Brasileiros” nas Vilas do Minho

Imagens de Fafe nos séculos XIX-XX