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Câmara Municipal de Fafe



O nosso blogue

Notas

O Museu das Migrações e das Comunidades foi fundado por deliberação do Município de Fafe em 12/07/2001.  Um Museu que pretende aprofundar o conhecimento das migrações na diáspora portuguesa.





Os Jardins

 

 

 

 

Sítio Histórico

O passeio público - O Jardim do Calvário

 

A actual configuração do Jardim Público é o resultado da transformação de uma elevação morfológica designada por "Outeiro do Calvário", onde existiu uma pequena capela.

Este espaço constituiu uma das referências religiosas locais, por se inscrever num itinerário de capelas dos Santos Passos com imagens de culto, de onde lhe vem o topónimo de "Calvário".

Jardim do Calvário

Fafe: Passeio Público em Construção 1891

( Luisa Vieira Campos de Carvalho - Arquivo privado)

A poente desenhava-se a Estrada Real Guimarães - Cavez, rasgada num "Vale de Estevas" e ladeada por um cais construído em 1838 e que hoje é conhecido por Arcada.

Aí foi crescendo um povoado à volta do qual se desenvolveu o actual Centro Cívico, objecto de remodelação recente, tendo como referentes alguns elementos de marcação simbólica do século XIX, onde os «brasileiros de torna-viagem» instalaram as sua moradias e uma burguesia cosmopolita de capitalistas, comendadores e barões circulavam, instituindo o lugar de elegância.

A transformação do Outeiro do Calvário em Jardim Público, estava delineado numa planta da Vila com data de 1866, aparecendo referida, em Deliberação Municipal de 11/11/1889, a apresentação do o seu projecto e que entretanto se perdera..

A sua construção ficou a dever-se ao Comendador Albino de Oliveira Guimarães, tendo este assinado um contrato, em 2 de Março de 1890, com os mestres Domingues Fernandes e Francisco Cerdeira, referindo-se no texto as condições para a sua edificação:

tendo o primeiro contratante deliberado fazer à sua conta toda a obra projectada para o jardim ou passeio público do Calvário, segundo a planta (…), bem como o encanamento e canalização da água para o tanque que fica por baixo do escadario da frente (…) pela quantia quatro contos e duzentos mil de Réis”. (...) deve estar concluída até Fevereiro do próximo Ano de 1891, para nessa ocasião poder o jardim ser aberto ao público". (Fafe, 2 de Março de 1890)

Jardim do Calvário

A inauguração oficial efectua-se em reunião de Câmara Municipal de 26 de Dezembro de 1892, sendo aí deliberado que se mandasse agradecer, por telegrama, ao Comendador Albino de Oliveira Guimarães a obra que promovera, por este se encontrar em Lisboa:

«agradecer ao Ex. mo Comendador Albino de Oliveira Guimarães, os valiosos serviços que prestara ao Município para a construção do mesmo jardim, propondo, por isso, [...] se exarasse na acta um voto de louvor àquele cavalheiro pelo grande melhoramento público que promovera, devendo isso ser transmitido para Lisboa» Deliberação municipal, Livro n.º14, de 26/12/1892

O Passeio Público é, ainda hoje, um lugar de eleição para os fafenses e constitui um símbolo do romantismo português, tal como muitos outros que existiram nas cidades e vilas do Norte de Portugal, apresentando características decorativas e arbóreas, tendo como primeiras referências nos Jardins Botânicos de Lisboa, Coimbra e Porto

Alguns desses elementos existem também no Palácio que hoje é Museu da República no Rio de Janeiro: o lago curvilíneo, as pontes, as guardas naturalista.

Os gradeamentos do jardim dão ao espaço protecção e isolamento, transformando-se esse lugar num sítio de animação cultural no contexto do Romantismo Português.

Jardim do Calvário

Além de um lago central, em 1912, o Jardim recebe um coreto, mandado construir por iniciativa do Município e em 1917, é comprado, pela município, um barco, por 36$50, na Povoa de Varzim, para colocar no lago, justificando-se no facto de ser uma boa fonte de receita.

Desde a sua inauguração possui iluminação, começando com cinco candeeiros a petróleo e, em 1914, a luz eléctrica é fornecida pela central de Santa Rita.

Em 1929 é elaborado um projecto de quiosque para o jardim junto do ringue de patinagem orçado em 11 198$00.

«Este espaço rectangular revestido de alguns frondosos cedros, tílias, carvalhos do Norte e muitos arbustos de variadas essências. Embora de modestas proporções (cercas de 70 m x 150 m), pode dizer-se um dos mais agradáveis jardins municipais das pequenas vilas do Minho. Daí, os olhos do visitante abrangem todo o horizonte da região da preambular das Terras de Basto: a montanha da Penha, a serra da Cabreira e o serro da Lameira. Em baixo, lavada e discreta, está a vila, com a sua espaçosa Avenida e algumas modernas ruas transversais.»

Jardim do Calvário

Com o surgimento de uma nova burguesia na segunda metade do Século XIX, o Passeio Público, passa a constituir-se como lugar de encontro e ócio, cumprindo uma função ideológica e simbólica para os que o frequentavam.

Em tempo de romantismo tardio, Fafe tem no seu Passeio Público, a expressão do exotismo naturalista, à imagem de outros que preencheram as cidades portuguesas, seguindo paradigmas de espaços semelhantes, nomeadamente os Passeios Públicos de Braga e de Guimarães,

Este jardim mantém, ainda, as características estruturais e decorativas desde a sua fundação.

Jardim do Calvário

 

JARDINS - PERSPECTIVA HISTÓRICA

Os jardins são, historicamente, espaços de cultura, possuindo uma história e gramática:

"em todas as épocas houve sempre algumas particularidades que deixam bem vincada a sua marca nas quintas de recreio de qualquer país. Assim é que ao sentido de ordem e a preocupação de formalismo que caracterizou a sociedade europeia do século XVII muito enformada de poder autocrático e respeitadora de regras de ouro, correspondem composições paisagísticas de forma rigorosamente geométrica e rigidamente simétricas em relação ao eixo longitudinal, marcado por um enfiamento de escadas (em Itália), por uma longa alameda (em Inglatera), ou por um canal ou sucessão linear de 'parterres? ou 'boulingrines' (em França). Ilídio de Araújo, Quintas de Recreio-(1973:3)

Num segundo momento, iniciado no século XVIII e que se vai prolongar pelo século seguinte, a gramática construtiva dos jardins é marcada pelo pensamento da afirmação do indivíduo livre, viajante, culto e liberto dos constrangimentos do Estado, reflectindo-se num novo conceito espacial, que se torna '"menos rígido ou autoritário, tal como o conceito de simetria adquire um sentido mais naturalista e menos geométrico" sobressaindo, nestes lugares, a variedade e exotismo da vegetação arbórea e arbustiva e os enquadramentos mais românticos.

Jardim do Calvário

O Passeio Público é também um elemento tipificador da sociedade portuguesa da 2.ª metade do século XIX, frequentado por Burgueses como lugar de convívio, comentando as últimas novidades, ouvindo música tocada por bandas nos coretos e assistindo a representações teatrais e ao lançamento de fogo de artifício.

O jardim público de Fafe, com aspecto híbrido de Alameda, Parque Jardim Privado, é delimitado por grades de ferro, apoiadas em pilares de pedra e desenhado numa forma aproximadamente quadrangular.

As escadarias de acesso com lanços laterais e pátio de acesso, gradeamento e portais, em ferro, simétricos, localizados nos lados nascente e poente, fazem dele um dos poucos exemplares de Passeio Público ainda existentes.

A organização e composição formal do seu interior assenta num Coreto e lago curvilíneo, referentes de eixo que marcam a sua centralidade, jogando quer a circulação dos elementos humanos, quer a organização da composição arbórea exótica neste sentido da centralidade.

No Jardim do Calvário, ainda, é possível entender o que foram as primorosas composições paisagísticas de carácter naturalista que preencheram os cenários do romantismo, com a "aplicação do betão armado às construções de jardins: - grutas, lagos, pontes, caramanchões, bancos, mesas, mirantes e outras construções decorativas feitas em cimento armado imitando frequentemente troncos e ramos de sobreiro", Ilídio Araújo (Jardins, Parques de Recreio no Aro do Porto: 1979:16)

Cf. Miguel Monteiro,

Mínia, n.º 10 - 2002